IX.br: o que é o maior ponto de troca de tráfego da internet do mundo

Quando você abre um site, os dados atravessam várias redes até chegar ao seu celular — a da hospedagem do site, a de alguma empresa de trânsito, a do seu provedor de internet. O caminho que eles fazem entre essas redes decide boa parte da velocidade. E, no Brasil, a peça que encurta esse caminho tem nome: IX.br.

O IX.br é o maior conjunto de pontos de troca de tráfego do mundo. Em março de 2026, bateu o recorde de 50 terabits por segundo de tráfego — e o ponto de São Paulo, sozinho, é o maior do planeta em volume e em número de redes conectadas. Este guia explica o que é o IX.br, como ele funciona, por que ele deixa a internet mais rápida e o que isso tem a ver com o lugar onde o seu site está hospedado.

Resposta rápida

O IX.br é o projeto do NIC.br que opera os Pontos de Troca de Tráfego (PTTs) do Brasil: locais onde provedores de internet, empresas de conteúdo e hospedagens conectam suas redes para trocar dados diretamente, sem precisar de intermediários — às vezes no exterior. Isso encurta o caminho dos dados, reduz a latência e o custo, e deixa a internet mais resistente a falhas. Criado em 2004, ele está em 39 localidades e é o maior conjunto de PTTs do mundo.

O que é um ponto de troca de tráfego

A internet não é uma rede só — é uma rede de redes. Seu provedor de internet é uma rede; a empresa que hospeda um site é outra; o Google, a Netflix e o banco que você usa são outras. Cada uma delas tem um número próprio, chamado ASN (número de sistema autônomo), e as redes precisam se conectar para que os dados passem de uma para a outra.

Existem dois jeitos de fazer isso. Pagar uma operadora de trânsito, que leva os dados até o destino pela rede dela — às vezes dando uma volta enorme. Ou conectar-se diretamente, num lugar onde muitas redes estão presentes ao mesmo tempo.

Esse lugar é o Ponto de Troca de Tráfego — PTT, em português, ou IXP (Internet Exchange Point), em inglês. Pense num entroncamento de estradas: em vez de cada cidade construir uma rodovia até todas as outras, todas se ligam a um mesmo trevo, e dali seguem direto para onde precisam. No PTT, dezenas ou milhares de redes se ligam ao mesmo equipamento e trocam tráfego entre si pelo caminho mais curto.

O que é o IX.br

O IX.br (Brasil Internet Exchange) é o projeto do NIC.br — Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR —, apoiado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), que cria e opera os pontos de troca de tráfego do país.

Para entender como o NIC.br e o CGI.br se organizam — e o que fazem os outros braços do NIC.br —, veja nosso guia sobre quem manda na internet brasileira.

Ele começou em julho de 2004, com o nome PTT Metro, atendendo primeiro a região metropolitana de São Paulo — e incorporando o primeiro ponto de troca do Brasil, operado pela Fapesp desde 1998. Em 2015, passou a se chamar IX.br, para ser reconhecido internacionalmente.

Três características definem o modelo:

  • É neutro e sem fins lucrativos. O IX.br não vende internet nem compete com os participantes — ele só oferece o ponto de encontro.
  • É metropolitano. Cada PTT atende uma região metropolitana, e as localidades não são interligadas entre si: o PTT de Fortaleza troca o tráfego de quem está em Fortaleza.
  • É financiado pelo domínio .br. A receita dos registros de domínios .br é investida pelo NIC.br na infraestrutura da internet no país — incluindo o IX.br. Cada domínio .br registrado ajuda a manter a rede que deixa a internet brasileira mais rápida. Veja quantos domínios .br existem hoje.

O IX.br em números

IndicadorNúmeroData
Localidades com PTT39julho de 2026
Entidades participantes conectadas diretamente3.855abril de 2025
Conexões aos PTTs7.033abril de 2025
Pico de tráfego agregado50 Tbit/smarço de 2026
Pico do IX.br São Paulo32 Tbit/smarço de 2026

Novas localidades estão em implantação, entre elas Macapá, a última capital brasileira ainda sem PTT.

A evolução do tráfego

AnoPico de tráfego agregadoMarco
20151,25 Tbit/sSão Paulo atinge 1 Tbit/s
202010 Tbit/sSalto com o aumento do streaming na pandemia
202120 Tbit/s35 localidades
202331 Tbit/s36 localidades; São Paulo com 22 Tbit/s
202540,26 Tbit/s38 localidades; São Paulo com 25,61 Tbit/s
202650 Tbit/sSão Paulo com 32 Tbit/s

Em seis anos, o tráfego do IX.br quintuplicou — de 10 para 50 Tbit/s. O NIC.br atribui o crescimento ao consumo de conteúdo online, ao streaming e ao aumento do número de provedores de internet conectados.

Gráfico da evolução do pico de tráfego do IX.br, de 1,25 Tbit/s em 2015 a 50 Tbit/s em 2026, com São Paulo respondendo por 32 Tbit/s

Por que São Paulo é o maior ponto de troca do mundo

O IX.br São Paulo é o líder mundial em volume de tráfego e em número de participantes — à frente dos grandes pontos de troca europeus e americanos. Em março de 2026, respondeu sozinho por 32 dos 50 Tbit/s do IX.br inteiro.

A explicação está na estrutura da internet brasileira. O Brasil tem milhares de pequenos e médios provedores de internet regionais, e o PTT é a forma mais eficiente de eles alcançarem os grandes provedores de conteúdo e uns aos outros. São Paulo concentra a maior parte dos data centers e das empresas de conteúdo do país — então é para lá que todos querem se conectar.

Essa concentração tem um lado menos visível. Segundo o NIC.br, os PTTs de São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Porto Alegre — 4 das 39 localidades — somam 90% do tráfego e quase 40% das redes participantes.

Fortaleza: a porta dos cabos submarinos

O segundo maior PTT do Brasil não fica no Sudeste — fica em Fortaleza. O motivo é geográfico: a capital cearense é o principal ponto de chegada dos cabos submarinos que ligam o Brasil aos Estados Unidos e à Europa. Quem precisa de conectividade internacional se instala perto de onde os cabos chegam — e o PTT cresce junto.

Em 2023, Fortaleza ultrapassou o Rio de Janeiro em tráfego e número de participantes; em 2025, chegou a 5,78 Tbit/s de pico, contra 4,94 Tbit/s do Rio.

Como funciona a troca de tráfego

Para participar, uma rede leva uma conexão física até o equipamento do PTT, instalado em data centers da região. A partir daí, ela pode trocar tráfego de dois jeitos:

  • Acordo de Troca de Tráfego Multilateral (ATM). A rede troca tráfego com todos os outros participantes do acordo por meio de servidores de rotas (route servers). Com uma única sessão de roteamento, ela recebe o caminho para todas as outras redes do ATM.
  • Acordos bilaterais. Duas redes combinam diretamente entre si a troca de tráfego, com regras próprias.

Quem se conecta: principalmente pequenos e médios provedores de internet, provedores de conteúdo — CDNs, empresas, órgãos públicos — e provedores de trânsito e transporte. É esse encontro entre quem entrega e quem consome conteúdo que torna o PTT valioso.

Por que o IX.br deixa a internet mais rápida

Menos latência. Quando duas redes se conectam no PTT, os dados vão direto de uma para a outra, pelo menor caminho. Sem o ponto de troca, eles podem passar por várias redes intermediárias — e cada uma acrescenta tempo.

Menos custo. Tráfego trocado no PTT não passa por uma operadora de trânsito, o que reduz o custo dos provedores — e, no fim, o preço da internet.

Mais resistência a falhas. Uma rede conectada ao PTT tem muitos caminhos alternativos. Se um cair, o tráfego segue por outro.

O “bumerangue”: quando o tráfego sai do país para voltar

Antes de os pontos de troca se espalharem, era comum o tráfego entre duas redes brasileiras dar a volta pelos Estados Unidos. Um usuário em São Paulo acessava um site hospedado em São Paulo, mas os dados iam até Miami e voltavam, porque era lá que as duas redes se encontravam.

A física explica o custo desse desvio. A luz viaja na fibra óptica a cerca de 200 mil quilômetros por segundo. São Paulo e Miami estão a 6.566 km em linha reta — o que significa que uma ida e volta leva, no mínimo, 65 milissegundos, antes de somar qualquer roteador no caminho. Entre São Paulo e o Rio, a 361 km, o mínimo é de 3,6 milissegundos. O PTT existe para que o tráfego nacional fique no segundo caso.

O desafio: levar a troca de tráfego para longe dos grandes centros

A internet brasileira ainda é muito concentrada. Segundo o NIC.br, os sete estados da região Norte ocupam 45% da área do país, mas têm 6 das 39 localidades do IX.br e só 4% do tráfego. Muita rede de outras regiões ainda precisa buscar conteúdo em São Paulo.

Duas frentes atacam isso. A primeira é a abertura de novos PTTs, como o de Macapá. A segunda é o OpenCDN, projeto do NIC.br que instala células de distribuição de conteúdo ligadas aos PTTs pelo país — para que vídeos, atualizações e sites populares fiquem mais perto de quem os consome. É a mesma lógica de uma CDN, aplicada à infraestrutura nacional.

O que o IX.br tem a ver com a hospedagem do seu site

Tudo o que foi dito até aqui se traduz numa decisão prática: para um público no Brasil, um site hospedado no Brasil, numa rede bem conectada aos pontos de troca, chega ao visitante pelo caminho mais curto. Um site hospedado no exterior começa com uma desvantagem que nenhuma otimização remove — os pelo menos 65 milissegundos de cada ida e volta até os Estados Unidos, multiplicados pelas várias viagens que uma página faz para carregar.

Duas formas de verificar o caminho até o seu site:

  • Rode um traceroute ou o WinMTR até o endereço do site. Se os saltos no meio da rota mostrarem nomes de cidades no exterior, o tráfego está saindo do país.
  • Consulte o PeeringDB (peeringdb.com), o banco de dados público das redes e dos pontos de troca do mundo. Nele, dá para ver em quais PTTs a rede de um provedor está presente.

E meça o resultado. Nosso guia sobre latência explica como medir o tempo de resposta até o servidor, e por que ele pesa na velocidade que o visitante sente.

Como acompanhar o IX.br

  • Site oficial: ix.br — com a lista de localidades, os participantes de cada PTT e a documentação técnica.
  • Gráficos de tráfego em tempo real, por localidade e agregados, publicados no próprio site do IX.br.
  • IX Fórum: o evento anual do NIC.br que reúne a comunidade dos pontos de troca, com edições regionais pelo país.

Fontes

Recordes de tráfego (NIC.br)

Localidades, participantes e história

Para acompanhar

Seu site perto de quem acessa

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Perguntas frequentes

O que é o IX.br?
É o projeto do NIC.br que cria e opera os Pontos de Troca de Tráfego da internet no Brasil — locais onde provedores de internet, empresas de conteúdo e hospedagens conectam suas redes para trocar dados diretamente. Criado em 2004, com o nome PTT Metro, está hoje em 39 localidades e é o maior conjunto de PTTs do mundo.

O que é um PTT (Ponto de Troca de Tráfego)?
É um local onde muitas redes diferentes se conectam ao mesmo equipamento para trocar tráfego diretamente entre si, sem passar por uma operadora de trânsito. Em inglês, é chamado de IXP, ou Internet Exchange Point.

Por que o IX.br de São Paulo é o maior do mundo?
Porque o Brasil tem milhares de provedores de internet regionais que precisam alcançar os grandes provedores de conteúdo, concentrados em São Paulo — e o PTT é a forma mais eficiente de fazer isso. Em março de 2026, o IX.br São Paulo registrou 32 Tbit/s de pico, liderando o mundo em tráfego e em número de participantes.

Qual foi o recorde de tráfego do IX.br?
50 Tbit/s de tráfego agregado, em março de 2026. Em 2020, o pico era de 10 Tbit/s — o tráfego quintuplicou em seis anos.

Quem paga pelo IX.br?
O IX.br é mantido pelo NIC.br, uma entidade sem fins lucrativos, e a receita dos registros de domínios .br é investida na infraestrutura da internet no país, incluindo os pontos de troca de tráfego.

O IX.br deixa a minha internet mais rápida?
Indiretamente, sim. Quando o seu provedor de internet está conectado a um PTT, os dados trocados com outras redes brasileiras fazem o caminho mais curto, sem precisar sair do país. Isso reduz a latência, o custo e o risco de falhas.

Por que hospedar um site no Brasil faz diferença?
Porque os dados de um site hospedado no exterior precisam atravessar o oceano a cada ida e volta. Só entre São Paulo e Miami, a física impõe um mínimo de 65 milissegundos por viagem — e uma página faz várias. Com o servidor no Brasil, numa rede bem conectada aos pontos de troca, o caminho até o visitante brasileiro é muito mais curto.

Conclusão

O IX.br é uma das peças mais importantes — e menos conhecidas — da internet brasileira. Em pouco mais de vinte anos, saiu de um único ponto de troca em São Paulo para 39 localidades e 50 Tbit/s de tráfego, e fez do PTT paulistano o maior do mundo.

O que ele faz é simples de explicar: encurta o caminho dos dados. Quando as redes se encontram aqui, o tráfego entre brasileiros não precisa atravessar o oceano — e a diferença entre ir a Miami e ficar no país é medida em dezenas de milissegundos a cada ida e volta.

Para quem tem site, a lição é direta. Hospedar perto do seu público, numa rede bem conectada, é uma vantagem que nenhuma otimização de código substitui. E, de quebra, cada domínio .br registrado ajuda a manter essa infraestrutura funcionando.

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Gustavo Gallas

Analista de sistemas, formado pela PUC-Rio. Programador, gestor de redes e diretor da empresa Homehost. Pai do Bóris, seu pet de estimação. Gosta de rock'n'roll, cerveja artesanal e de escrever sobre assuntos técnicos.

Contato: gustavo.blog@homehost.com.br

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