O WHOIS foi aposentado: conheça o RDAP, o novo protocolo de domínios

O substituto oficial do protocolo WHOIS é o RDAP — Registration Data Access Protocol. E se você tem um domínio, desenvolve sites ou trabalha com hospedagem, vale entender o que mudou.

Se você já precisou descobrir quem é o dono de um domínio, quando ele expira ou qual empresa o registrou, provavelmente usou uma ferramenta de WHOIS. Por mais de 40 anos, o WHOIS foi o protocolo padrão para consultar essas informações na internet.

Mas o WHOIS acabou.

Em 28 de janeiro de 2025, a ICANN — a organização responsável pela coordenação global de nomes de domínio — removeu a obrigação contratual para que registros e registradores de domínios gTLD oferecessem o serviço WHOIS. Desde então, centenas de registros começaram a desligar seus servidores WHOIS. Em setembro de 2025, 374 TLDs já não ofereciam mais WHOIS, de acordo com o TLD RDAP Monitor.

Por que o WHOIS durou tanto tempo — e por que acabou

O WHOIS foi formalizado em 1982 pelo RFC 812, quando a internet tinha apenas algumas centenas de hosts. O protocolo é simples na essência: o cliente abre uma conexão TCP na porta 43, envia um nome de domínio em texto plano, e recebe uma resposta de texto livre. Sem formato padronizado, sem criptografia, sem autenticação.

Por 40 anos, o WHOIS funcionou. Mas suas limitações técnicas tornaram-se problemas críticos à medida que a internet cresceu:

Falta de padronização: cada registro de domínio retornava informações em formatos completamente diferentes. Um script que funcionava para domínios .com quebrava em .org, e funcionava de forma diferente em .br. Automatizar consultas era um pesadelo.

Sem privacidade: o WHOIS exibia publicamente os dados de contato do registrante — nome, e-mail, telefone, endereço — para qualquer pessoa que perguntasse. A chegada do GDPR em 2018 tornou isso incompatível com a legislação de privacidade europeia.

Sem criptografia: as consultas eram feitas em texto puro, visíveis para qualquer um na rede. Sem TLS, sem HTTPS.

Sem controle de acesso: era tudo ou nada. Ou você exibia todos os dados publicamente, ou não exibia nada.

Sem suporte a caracteres internacionais: domínios com caracteres não-latinos (árabe, chinês, cirílico) não eram suportados adequadamente.

O que é o RDAP

O RDAP (Registration Data Access Protocol) foi desenvolvido pelo IETF — a organização responsável pelos padrões técnicos da internet — e publicado como padrão em 2015 nos RFCs 7480 a 7484. A ICANN exigiu que todos os registros gTLD implementassem RDAP a partir de 2019, e em janeiro de 2025 tornou o RDAP o protocolo definitivo.

A diferença fundamental é a arquitetura. Enquanto o WHOIS usava TCP na porta 43 com resposta em texto livre, o RDAP é uma API REST sobre HTTPS que retorna dados em JSON estruturado.

Na prática, uma consulta RDAP é simplesmente uma requisição HTTP:

https://rdap.org/domain/homehost.com.br

O retorno é um objeto JSON padronizado e legível por máquina, com todos os dados do domínio organizados em campos bem definidos.

RDAP vs WHOIS: as diferenças principais

CaracterísticaWHOISRDAP
ProtocoloTCP porta 43HTTPS (REST API)
Formato de respostaTexto livreJSON estruturado
CriptografiaNãoSim (TLS nativo)
AutenticaçãoNãoSim (OAuth 2.0)
Controle de acessoNenhumCamadas (público, autenticado, privilegiado)
InternacionalizaçãoLimitadaSuporte completo a IDNs
PadronizaçãoCada TLD decideFormato único global
Dados em tempo realNão garantidoSim

O sistema de acesso em camadas do RDAP

Um dos avanços mais importantes do RDAP é o sistema de acesso diferenciado — algo que o WHOIS nunca conseguiu oferecer:

Acesso anônimo — qualquer pessoa pode consultar os dados públicos: nome do domínio, datas de registro e expiração, status, nameservers. É o que uma consulta RDAP padrão retorna.

Acesso autenticado — via token OAuth 2.0, o próprio registrante pode acessar seus dados completos, incluindo informações de contato.

Acesso privilegiado — reservado para autoridades policiais, organizações de proteção de propriedade intelectual e equipes de cibersegurança credenciadas. Permite acesso a dados não públicos mediante processo formal (o sistema SSAD da ICANN).

Isso resolve o dilema do WHOIS pós-GDPR: antes, ou você expunha tudo publicamente ou ocultava tudo. Agora, cada tipo de usuário acessa o nível de informação adequado ao seu contexto.

Os números da transição

A adoção do RDAP acelerou rapidamente após o sunset do WHOIS:

  • Em janeiro de 2025: ~122 bilhões de consultas WHOIS por mês e ~7 bilhões de consultas RDAP
  • Em agosto de 2025: ~49 bilhões de consultas WHOIS e ~65 bilhões de RDAP
  • Em junho de 2025, as consultas RDAP superaram as WHOIS pela primeira vez

Até o final de 2025, 77% de todos os TLDs haviam implantado RDAP. Todos os gTLDs (como .com, .net, .org, .io) já completaram a transição. Entre os ccTLDs (como .br, .de, .uk), 34,2% já adotaram RDAP.

O registro.br já suporta RDAP há anos, com endpoint em rdap.registro.br

Como consultar o RDAP

1. Pelo navegador (o mais simples)

A ICANN mantém um portal oficial de consultas RDAP:

https://lookup.icann.org

Basta digitar qualquer domínio. O resultado é mais limpo e organizado que o WHOIS tradicional.

2. Direto pela URL (consulta manual)

O RDAP é uma API REST — você pode consultar diretamente pelo navegador ou por qualquer ferramenta HTTP:

Para domínios .com e gTLDs:

https://rdap.org/domain/seudominio.com

Para domínios .br:

https://rdap.registro.br/domain/seudominio.com.br

Para endereços IP:

https://rdap.org/ip/177.71.128.0

Para blocos de ASN:

https://rdap.org/autnum/52505

3. Pelo terminal (curl)

curl https://rdap.org/domain/homehost.com.br

Para visualizar o JSON de forma legível, instale o jq:

curl https://rdap.org/domain/homehost.com.br | jq .

Exemplo de saída parcial:

{
  "objectClassName": "domain",
  "ldhName": "homehost.com.br",
  "status": ["active"],
  "events": [
    {
      "eventAction": "registration",
      "eventDate": "2006-03-14T00:00:00Z"
    },
    {
      "eventAction": "expiration",
      "eventDate": "2027-03-14T00:00:00Z"
    }
  ],
  "nameservers": [
    {"ldhName": "ns1.homehost.com.br"},
    {"ldhName": "ns2.homehost.com.br"}
  ]
}

4. No PowerShell (Windows)

# Instalar o módulo Get-RDAP
Install-Module -Name Get-RDAP

# Configurar política de execução (necessário na primeira vez)
Set-ExecutionPolicy -ExecutionPolicy RemoteSigned -Scope CurrentUser

# Importar o módulo
Import-Module Get-RDAP

# Consultar um domínio
Get-RDAP -Domain homehost.com.br

# Consultar múltiplos domínios de uma vez
@("homehost.com.br", "registro.br", "google.com") | ForEach-Object {
    Get-RDAP -Domain $_
}
Consulta por um dominio usando Get-RDAP

5. Em Python

import requests
import json

def consultar_rdap(dominio):
    url = f"https://rdap.org/domain/{dominio}"
    resposta = requests.get(url)
    dados = resposta.json()
    
    print(f"Domínio: {dados.get('ldhName')}")
    print(f"Status: {dados.get('status')}")
    
    for evento in dados.get('events', []):
        if evento['eventAction'] == 'expiration':
            print(f"Expira em: {evento['eventDate']}")
    
    nameservers = [ns['ldhName'] for ns in dados.get('nameservers', [])]
    print(f"Nameservers: {', '.join(nameservers)}")

consultar_rdap("homehost.com.br")

6. Em Node.js

const https = require('https');

function consultarRDAP(dominio) {
    const url = `https://rdap.org/domain/${dominio}`;
    
    https.get(url, (res) => {
        let dados = '';
        res.on('data', (chunk) => dados += chunk);
        res.on('end', () => {
            const json = JSON.parse(dados);
            console.log(`Domínio: ${json.ldhName}`);
            console.log(`Status: ${json.status}`);
            
            const expiracao = json.events?.find(e => e.eventAction === 'expiration');
            if (expiracao) {
                console.log(`Expira em: ${expiracao.eventDate}`);
            }
        });
    });
}

consultarRDAP('homehost.com.br');

Como interpretar os status do RDAP

Um campo importante no retorno RDAP é o status, que usa os códigos EPP padronizados:

StatusSignificado
activeDomínio ativo e funcionando normalmente
clientTransferProhibitedTransferência bloqueada pelo registrador (proteção padrão)
clientUpdateProhibitedAtualizações bloqueadas — proteção adicional
clientDeleteProhibitedExclusão bloqueada — proteção adicional
serverTransferProhibitedTransferência bloqueada pelo registro (ex: domínios .br em disputa)
pendingDeleteEm processo de exclusão após expiração
redemptionPeriodPeríodo de recuperação após expiração (30 dias)
pendingRestoreSolicitação de recuperação em andamento

Para a maioria dos domínios ativos, você verá active combinado com clientTransferProhibited — que é o status normal e saudável.

O .br e o RDAP

O registro.br implementou suporte a RDAP antes da exigência formal da ICANN. O endpoint oficial é:

https://rdap.registro.br/domain/seudominio.com.br

Os dados retornados para domínios .br incluem informações específicas do sistema brasileiro de registro, incluindo os dados de contato do registrante quando aplicável pela legislação brasileira.

O que muda para donos de domínio

Para a grande maioria dos donos de site e domínio, a mudança é transparente — você não precisa fazer nada. Os registradores (incluindo a Homehost) já gerenciam essa transição nos bastidores.

O que muda na prática:

Ferramentas WHOIS antigas podem parar de funcionar. Extensões de navegador, scripts e ferramentas que consultam a porta 43 diretamente podem retornar erros para domínios cujos registros já desligaram o WHOIS. A solução é usar as ferramentas acima, que consultam RDAP nativamente.

Menos dados de contato visíveis publicamente. Com o RDAP e o GDPR, dados pessoais do registrante (nome, e-mail, telefone) são ocultados por padrão em consultas anônimas. Isso é uma proteção para você como dono de domínio.

Consultas programáticas ficam muito mais simples. Se você desenvolve sistemas que precisam consultar dados de domínio, o RDAP com JSON estruturado é incomparavelmente mais fácil de integrar do que o WHOIS com texto livre.

Recursos e ferramentas úteis

Fontes

A Homehost oferece registro de domínios com suporte ao RDAP. Todos os domínios registrados através da Homehost são compatíveis com o novo protocolo. Consulte nossos planos de registro de domínio.

Este artigo foi útil?

Obrigado pela resposta!
Picture of Gustavo Gallas

Gustavo Gallas

Analista de sistemas, formado pela PUC-Rio. Programador, gestor de redes e diretor da empresa Homehost. Pai do Bóris, seu pet de estimação. Gosta de rock'n'roll, cerveja artesanal e de escrever sobre assuntos técnicos.

Contato: gustavo.blog@homehost.com.br

Ganhe 30% OFF

Indique seu nome e e-mail,e ganhe um cupom de desconto de 30% para sempre na Homehost!